1 de outubro de 2026

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Cultura

O andar que sumiu: por que os coreanos fogem do número 4

Elevadores que vão 1, 2, 3, F e um aeroporto sem portão 4: uma sílaba coreana explica tudo. Veja o quanto isso ainda é levado a sério.

Por Editores da MARU · · 6 min de leitura
O andar que sumiu: por que os coreanos fogem do número 4
Foto: Nam-ho Park from Seoul, Korea, CC BY 2.0 / Wikimedia Commons

Entre no elevador de um prédio residencial mais antigo ou de um hospital na Coreia e talvez você encontre um painel assim: 1, 2, 3, F, 5. Ninguém esqueceu de contar. O F vem de "four", quatro em inglês, e está ali por causa de uma única sílaba: em coreano, o número quatro é 사 (sa), e a palavra sino-coreana para morte também é 사 (死, sa).

Essa coincidência de pronúncia moldou discretamente andares, números de quartos e até portões de aeroporto. Mas o medo é mais leve do que esses botões sugerem. Para muitos coreanos hoje, é mais hábito do que crença de verdade, e a história do número é bem mais simpática do que a fama dele.

Um som, dois significados

O coreano tem dois sistemas de números. Os números nativos, como 하나, 둘, 셋, 넷 (hana, dul, set, net), servem para contar objetos e, no dia a dia, para dizer a idade. Os sino-coreanos, 일, 이, 삼, 사 (il, i, sam, sa), vêm dos caracteres chineses e aparecem em datas, dinheiro, telefones e andares. Assim, o quarto andar é 4층 (sa-cheung), e esse quatro soa exatamente como o 死 de 사망 (samang, morte).

Repare no detalhe: o incômodo está no som, não na quantidade. Ninguém hesita em pedir 네 개 (ne gae, quatro unidades) na padaria, porque a palavra nativa nunca lembra morte. É o sa sino-coreano, o que aparece em prédios e calendários, que carrega o eco.

A Coreia não está sozinha nisso. Em mandarim, quatro (sì) e morte (sǐ) só mudam no tom, e em japonês as duas palavras podem ser lidas shi, por isso os japoneses costumam dizer yon para o quatro. A superstição viajou pela região junto com os próprios caracteres.

Onde você vai notar

O sinal mais famoso é o botão F. Em vez de imprimir um 4, alguns prédios chamam o quarto andar de F, de "four". O andar continua lá; só o número fica escondido. Outros prédios simplesmente pulam do 3 para o 5.

Os hospitais costumam ser os mais cuidadosos, o que faz sentido: uma enfermaria é o último lugar onde alguém quer ser lembrado da morte. Alguns evitam o 4 em andares ou números de quartos, e prédios mais antigos podem pular números de apartamento que o repetem, como 404.

O costume chega até a principal porta de entrada do país. O Aeroporto Internacional de Incheon informa que não tem os portões 4, 44 e 244, explicando que o 4 é evitado nos países do Leste Asiático que usam caracteres chineses por soar como morte. Num gesto atencioso com os visitantes, o aeroporto também pula o portão 13, considerado número de azar em culturas ocidentais.

Quanto as pessoas ainda acreditam nisso?

Menos do que parece. Em 2024, o Gallup Korea perguntou a 1.777 pessoas de 13 anos ou mais qual era o número favorito delas. Só cerca de 2% escolheram o 4, mais ou menos o mesmo que o 6 (3%) e o 10 (2%). Ou seja, o 4 não é odiado; ele só fica esquecido. No comentário da própria pesquisa, o Gallup observa que o 4 era pulado nos andares e nos números de apartamentos de prédios antigos, mas que esse tabu parece ter quase desaparecido.

Isso combina com o dia a dia. Muitos prédios novos mostram um 4 comum no elevador, as pessoas usam telefones e preços com 4 sem pensar duas vezes, e quatro amigos dividem uma mesa sem problema nenhum. A velha cautela resiste mais em lugares que já lembram doença e perda, como hospitais e salas de velório, e entre alguns coreanos mais velhos que cresceram com ela. Dá para chamar de superstição leve: quase ninguém acredita ao pé da letra, mas ainda se sente.

Também vale lembrar que o 4 nem sempre foi um número sombrio. A cultura tradicional está cheia de quatros respeitáveis: 사주 (saju, os "quatro pilares" de ano, mês, dia e hora de nascimento usados para ler a sorte) e 사군자 (sagunja, os "quatro cavalheiros" da pintura clássica: ameixeira, orquídea, crisântemo e bambu). Autores coreanos que escrevem sobre cultura lembram que, durante boa parte da história, o quatro foi visto como um número estável e até auspicioso. Quando exatamente a ligação com a morte ganhou força ainda é tema de debate.

Os números que os coreanos adoram

Se o 4 fica de canto, o 7 é a estrela. Na mesma pesquisa do Gallup, 34% escolheram o 7 como favorito, seguido por 3 (18%), 5 (12%) e 1 (11%). O Gallup descreve o 7 como um "número da sorte" que veio do Ocidente, e ele lidera em todas as edições da pesquisa desde 2004. No geral, os números ímpares dominam.

O número com raízes locais mais profundas é o 3. Os coreanos gostam de resolver as coisas em três, como no 삼세판 (samsepan), o famoso "melhor de três", ou simplesmente na insistência numa terceira rodada depois de perder a segunda. Uma reportagem da K-Gonggam, revista semanal do governo, liga esse carinho ao mito de fundação de Dangun, em que três selos celestiais são entregues, e aponta trios também nos costumes, como os três tipos de fruta na mesa dos rituais aos antepassados. E o 8, que dizem ser o queridinho da China? Na Coreia, é o número par mais popular, escolhido por 5%.

Se você for à Coreia

Respostas rápidas

Por que o número 4 dá azar na Coreia?

Porque a palavra sino-coreana para quatro, 사 (sa), soa igual à palavra sino-coreana para morte (死, também sa). A mesma semelhança existe no chinês e no japonês, e por isso o 4 virou um número que muita gente prefere evitar.

Por que o elevador na Coreia mostra F no lugar do 4?

F vem de "four", quatro em inglês. Chamar o quarto andar de F permite manter o andar sem mostrar o número. Você vai ver isso principalmente em prédios antigos e hospitais.

Os coreanos ainda acreditam que o 4 dá azar?

Mais como um hábito leve. A pesquisa do Gallup Korea de 2024 indica que o velho tabu quase desapareceu do cotidiano, embora alguns hospitais e coreanos mais velhos ainda prefiram evitar o número.

Fontes

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