O pão de peixe sem peixe que avisa os coreanos que o inverno chegou
Quando sopra o primeiro vento frio, carrinhos de pães em forma de peixe e panquecas com calda surgem pela Coreia. Saiba por quê e como os coreanos os caçam.

Em algum momento de outubro, as esquinas da Coreia começam a ter outro cheiro. Um carrinho aparece perto da saída do metrô, uma fileira de formas de ferro começa a chiar e o ar se enche de cheiro de massa tostada e feijão-vermelho quentinho. Logo os amigos estão espalhando a boa notícia: voltou a temporada do bungeoppang.
O 붕어빵 (bungeoppang, “pão de carpa”) é um bolinho em forma de peixe que não leva peixe nenhum, só pasta doce de feijão-vermelho ou creme de confeiteiro. Ele divide a calçada de inverno com o 호떡 (hotteok, uma panqueca com açúcar derretido por dentro), o 계란빵 (gyeranppang, pão de ovo), a batata-doce assada e as castanhas assadas. Eles aparecem quando esfria por um motivo simples: são quentes, baratos e feitos para comer na rua, com as duas mãos em volta de um saquinho de papel morno. Muitos carrinhos só funcionam durante a temporada, mais ou menos de outubro a março ou começo de abril, e por isso a volta deles virou um dos sinais de que o inverno chegou.
Um pão de peixe sem peixe
O bungeoppang faz parte de uma família que os coreanos chamam de 풀빵 (pulppang): uma massa rala despejada numa forma de ferro quente, uma colherada de feijão-vermelho no meio, mais massa por cima, e depois é só virar até dourar. Segundo a Enciclopédia da Cultura Coreana, essas formas chegaram do Japão nos anos 1930, durante o período colonial. O formato de peixe costuma ser ligado ao taiyaki japonês, inspirado no pargo, embora o Korea JoongAng Daily observe que é difícil encontrar registros oficiais de como ele chegou. Na Coreia, o peixe virou um 붕어 (bungeo), uma carpa de água doce bem comum. Mude a forma e o nome muda junto: a versão em formato de flor é o 국화빵 (gukhwappang, “pão de crisântemo”).
Foi a farinha barata que o transformou num clássico de rua. O clima da Coreia nunca favoreceu o trigo, então pratos de farinha já foram um luxo. Depois da Guerra da Coreia, um acordo de 1954 trouxe ao país excedentes de trigo americano, e nos anos 1960, quando o governo incentivava a população a comer mais farinha e grãos misturados para economizar arroz, o pulppang virou um dos lanches mais baratos da rua.
Hoje a briga é pelo recheio. O 팥붕 (patbung) é o de feijão-vermelho, o 슈붕 (syubung) é o de creme, e “patbung ou syubung?” é um debate sem fim na Coreia, ao lado de outro igualmente sério: começar pela cabeça ou pelo rabo? Não existe resposta certa, e é justamente por isso que ninguém para de perguntar.

Hotteok: a panqueca que chegou com os comerciantes chineses
O hotteok tem outra árvore genealógica. O Dicionário Padrão da Língua Coreana registra simplesmente que ele veio da China, e a Enciclopédia da Cultura Coreana completa a história: ele chegou com imigrantes chineses nos anos 1880, depois que um acordo comercial de 1882 entre Joseon e a China da dinastia Qing abriu caminho para que comerciantes chineses se instalassem. Em outubro de 1930 já havia 1.139 lojas de hotteok de donos chineses pelo país. O ho do nome é escrito com o caractere 胡, uma palavra antiga para os estrangeiros das terras a oeste e ao norte da China.
O hotteok fez sucesso até os anos 1960 e perdeu força nos anos 1970, quando um pão no vapor chamado 호빵 (hoppang) virou febre e muitas lojas chinesas fecharam. O hotteok vendido hoje na rua é uma adaptação coreana: uma massa macia e elástica que envolve açúcar mascavo, muitas vezes com canela e castanhas picadas, prensada numa chapa untada até o açúcar derreter e virar calda. Busan vai além com o 씨앗호떡 (ssiat-hotteok, “hotteok de sementes”), que, segundo a enciclopédia, surgiu nas ruas de Nampo-dong nos anos 1980: a massa é frita, aberta ao meio e recheada com amendoim, semente de girassol e semente de abóbora triturados.
O aviso que os coreanos dão a quem prova pela primeira vez: a calda é muito mais quente do que parece. O hotteok entrou até no jeito de falar. Quando um lugar está barulhento e caótico, os coreanos dizem que parece 호떡집에 불난 것 같다 (hotteok-jibe bullan geot gatda), “uma loja de hotteok pegando fogo”.

Pão de ovo, batata-doce e castanhas
O gyeranppang é o caçula do grupo: um pãozinho doce, com textura que lembra bolo, assado com um ovo inteiro por cima ou por dentro. O Korea Times conta que, segundo se diz, ele surgiu em 1984 numa lojinha perto da Universidade Inha, em Incheon, cujo dono vendia pulppang e queria uma opção para os clientes que não comiam feijão-vermelho. Em 2025, a CNN o colocou na sua lista dos 50 melhores pães do mundo.
Os cheiros de inverno mais antigos vêm do fogo. A Enciclopédia da Cultura Coreana descreve os vendedores de 군밤 (gunbam, castanhas assadas) nas ruas das noites de inverno como uma cena típica da estação. A batata-doce chegou à Coreia em 1763, quando o enviado Jo Eom trouxe da ilha de Tsushima batatas-doces para plantio durante uma missão ao Japão, e por muito tempo a 군고구마 (gungoguma, batata-doce assada) foi assada em fornos em formato de tambor na calçada. Hoje esses fornos são mais raros: a alta dos custos tirou muitos vendedores da rua, e agora a batata-doce assada costuma sair de uma máquina na entrada de um supermercado.
Morar na “zona do bungeoppang”
Os anúncios imobiliários coreanos adoram a palavra 역세권 (yeoksegwon), “pertinho de uma estação de metrô”. Troque a primeira sílaba pela de bungeoppang e você tem 붕세권 (bungsegwon): morar tão perto de um carrinho de bungeoppang que dá para comprar um saquinho no caminho de casa. A palavra é dita com um sorriso e também com um pouco de saudade, porque está cada vez mais difícil encontrar os carrinhos.
As barracas de rua enfrentam reclamações, multas e fiscalizações, e os custos não param de subir. Números da prefeitura de Seul citados pela revista Weekly Kyunghyang mostraram que as barracas de rua da capital caíram de 7.718 em 2016 para 5.873 em setembro de 2021. Muitos coreanos se lembram de quando 1.000 wons compravam três ou quatro bungeoppang. No fim de 2025, o jornal econômico Hankyung encontrou muitos carrinhos de Seul cobrando 1.000 wons por unidade, com o preço do feijão-vermelho nacional no atacado mais de 20% acima do ano anterior.
Os apps que caçam carrinhos
Então os coreanos criaram mapas. O mais conhecido é o 가슴속 3천원 (Gaseumsok Samcheonwon, “3.000 wons no coração”), um app para achar carrinhos que nasceu como projeto paralelo de uma pequena equipe de desenvolvedores e designers. O nome vem de uma piada da internet: no inverno, é bom sempre levar 3.000 wons guardados perto do coração, porque você nunca sabe quando vai passar por um carrinho. Os usuários marcam os carrinhos no mapa, confirmam quando visitam e anotam o cardápio e as formas de pagamento de cada um, e hoje o app também mostra hotteok, pão de ovo e outros lanches de rua.
O app de compra e venda entre vizinhos Karrot (당근, Danggeun) lançou em 2020 um mapa sazonal de lanches de inverno e, em novembro de 2024, o transformou num mapa só de bungeoppang, onde os moradores adicionam barracas, horários e faixas de preço para os vizinhos.
No carrinho: dinheiro, transferência e como pedir
- Leve notas pequenas. Nem todo carrinho aceita cartão, então dinheiro vivo, de preferência notas de 1.000 wons, é o jeito mais fácil de pagar.
- Procure o número da conta. Muitos vendedores também aceitam transferência bancária, 계좌이체 (gyejwa iche), algo parecido com o Pix, para um número de conta ou QR code colado no carrinho. Para isso é preciso ter conta num banco coreano, então quem está de visita deve levar dinheiro.
- Mande o valor certo. Em 2023, a imprensa coreana noticiou clientes que “pagavam” 2.000 wons por transferência, mas mandavam só 200 ou 300, e alguns vendedores voltaram a aceitar só dinheiro. Confira o valor antes de enviar.
- Peça pelo recheio e pela quantidade. 팥 세 개 주세요 (Pat se gae juseyo) quer dizer “Três de feijão-vermelho, por favor”. Chame o vendedor de 사장님 (sajangnim), o jeito educado de se dirigir a um dono, como você faria numa barraca do Mercado Gwangjang.
Respostas rápidas
Por que o bungeoppang se chama “pão de carpa” se não leva peixe?
Por causa do formato. Ele é assado numa forma que imita um bungeo, uma carpa. Por dentro só tem recheio doce: tradicionalmente pasta de feijão-vermelho e, hoje, muitas vezes creme.
Por que bungeoppang e hotteok só são vendidos no inverno?
São lanches quentes e baratos, feitos para comer na rua, então vendem melhor no frio. Muitos carrinhos só funcionam durante a temporada, mais ou menos de outubro a março ou começo de abril.
O que significa bungsegwon em coreano?
붕세권 (bungsegwon) é uma gíria para quem mora perto de um carrinho de bungeoppang. Ela brinca com yeoksegwon, a palavra do mercado imobiliário para “perto de uma estação de metrô”.


