No Mercado Gwangjang, toda cozinheira é a “tia” de alguém
Uma palavra transforma um desconhecido em família. E não há lugar melhor para ouvi-la do que o centenário Mercado Gwangjang, em Seul.

Fique um minuto ao lado de uma barraca de bindaetteok no Mercado Gwangjang e preste atenção. O óleo chia na chapa, os pratos batem e, a cada poucos segundos, alguém chama a mulher que vira as panquecas: 이모! (imo!). Imo quer dizer “tia”, mais precisamente a irmã da sua mãe. Quem a chama não é sobrinho dela. A maioria a conheceu cinco minutos atrás.
Essa única palavra diz muito sobre a Coreia. O coreano não tem um “senhor” ou “senhora” neutro, e as palavras do dia a dia para “você” podem soar frias, até grosseiras, com um desconhecido. Por isso, quando os coreanos precisam se dirigir a alguém que não é da família nem tem um cargo conhecido, pegam emprestada uma palavra de família. A mulher de meia-idade que serve a comida vira imo; uma mais jovem, 언니 (eonni, “irmã mais velha”); um rapaz que trabalha ali, 삼촌 (samchon, “tio”); e o dono, 사장님 (sajangnim, “chefe”). O Mercado Gwangjang, em Seul, é um dos melhores lugares para ouvir essa família toda em ação.
Uma língua sem palavra para “senhora”
O coreano funciona à base de cargos, do líder de equipe Kim ao Professor e ao Doutor. O problema começa com alguém que não tem um cargo que você conheça e não é da família. Num artigo de 2018 para uma revista do Instituto Nacional da Língua Coreana, Chae Wan, especialista em língua coreana, observa que a sociedade coreana é especialmente sensível a cargos e simplesmente não tem uma boa palavra para um desconhecido sem título. As palavras de família preenchem essa lacuna: irmão mais velho, irmã mais velha, tia, tio, avó, avô.
O hábito é mais antigo do que parece. Um dicionário coreano-francês compilado por missionários católicos franceses e publicado em 1880 já registrava que uma palavra antiga para “tia”, 아자먼이 (ajameoni), também era usada para mulheres de fora da família. Existem, claro, opções neutras: 저기요 (jeogiyo, “com licença”) e 여기요 (yeogiyo, “aqui, por favor!”). Numa pesquisa de 2024 do Instituto Nacional da Língua Coreana, essas foram as formas mais comuns de chamar funcionários. Elas resolvem. Imo resolve com carinho.

Sua família instantânea, explicada
- 이모 (imo), “tia”: literalmente, a irmã da sua mãe. Vale para mulheres que parecem estar na meia-idade, sobretudo as que servem comida. A idade de quem fala não importa: um cliente de 60 anos pode chamar tranquilamente uma cozinheira de 45 de imo.
- 언니 (eonni), “irmã mais velha”: é como as mulheres chamam uma irmã ou amiga mais velha, e como muitos clientes chamam a vendedora, a cabeleireira ou a garçonete que parece mais nova que a “idade de imo”. Um dicionário de 1920 descreve a palavra como termo infantil para o irmão mais velho do mesmo sexo, então os meninos também já chamaram os irmãos mais velhos de eonni.
- 삼촌 (samchon), “tio”: chon conta os graus de parentesco, e o irmão do seu pai está a três passos de você. Numa loja ou restaurante, é um jeito simpático de chamar um funcionário.
- 사장님 (sajangnim), “chefe”: literalmente “presidente da empresa”, é a forma educada de se dirigir ao dono de uma loja ou barraca. Na prática, muita gente usa para quem estiver atrás do balcão.
Repare em quem ficou de fora: 아줌마 (ajumma). É a palavra do dia a dia para uma mulher de meia-idade, mas dita na cara dela pode soar rude, e é justamente por isso que os fregueses preferem imo. Os coreanos usam o mesmo truque com os amigos, como a MARU explica no guia sobre oppa, eonni, hyeong e nuna. E como cada uma dessas palavras já traz uma idade embutida, vale entender como funciona a idade na Coreia.

Por que o mercado é território de família
O Mercado Gwangjang abriu em 1905, quando o Japão apertava cada vez mais o controle sobre a Coreia. Um grupo de comerciantes coreanos juntou dinheiro, fundou uma empresa e abriu um mercado próprio em Baeogae, uma antiga feira matinal da região. No começo se chamava Mercado Dongdaemun; o nome Gwangjang costuma ser atribuído a duas pontes sobre o riacho Cheonggyecheon, Gwanggyo e Janggyo. A Organização de Turismo da Coreia o descreve como o primeiro mercado permanente do país, de uma época em que a maioria dos mercados só abria em dias fixos. Ficou em ruínas na Guerra da Coreia e foi reconstruído, e ainda vende seda, tecidos para hanbok e roupa de cama além de comida.
As barracas começaram alimentando quem trabalhava no mercado, e é por isso que a comida continua sendo, como diz o Korea Herald, comida de trabalhador: barata e que sustenta. Você come num banco em volta do balcão da cozinheira, ombro a ombro com desconhecidos. Os fregueses voltam à mesma barraca por anos, e é aí que imo deixa de ser só um jeito de falar. Uma matéria de 2013 do Korea JoongAng Daily observou que os clientes fiéis de pequenos restaurantes evitam dizer “ajumma” e chamam as donas de “mãe” ou “tia”, por carinho de verdade e, segundo a matéria, talvez na esperança de ganhar um acompanhamento a mais. Na Coreia, dar de comer sempre foi um jeito de cuidar, o mesmo instinto por trás do cumprimento “Já comeu?”
O que comer: os três clássicos, e um macarrão
- Bindaetteok (빈대떡): panqueca de feijão-mungo. O feijão de molho é moído até virar massa, misturado com broto de feijão e outros recheios, muitas vezes carne de porco ou kimchi, e frito bem grosso em bastante óleo até as bordas ficarem crocantes. Vem com um molho de shoyu, vinagre e cebola crua, e muita gente acompanha com makgeolli, o vinho de arroz coreano.
- Mayak gimbap (마약김밥): mayak quer dizer “narcótico”, uma brincadeira com o quanto é difícil parar de comer. São rolinhos do tamanho de um dedo, com poucos recheios, como cenoura e nabo em conserva, enrolados em alga pincelada com óleo de gergelim e mergulhados num molho ardido de mostarda. E não, não tem nada ilegal dentro: o site de notícias da prefeitura de Seul conta que alguns turistas estrangeiros já se perguntaram.
- Yukhoe (육회): carne bovina crua temperada, um prato que os coreanos comem há séculos. Muitas casas do mercado são especializadas nele e ficam juntas no que o pessoal chama de beco do yukhoe (육회 골목, yukhoe golmok); algumas já apareceram no Guia Michelin. Prove puro ou como tangtangi, misturado com polvo cru picado.
E tem o efeito Netflix. Em 2019, o episódio de Seul de Street Food: Asia foi dedicado ao Mercado Gwangjang e mostrou clássicos queridos, do caranguejo marinado no shoyu à sopa de macarrão cortado na faca, o 칼국수 (kalguksu). Desde então, turistas estrangeiros fazem fila por esse macarrão.
As críticas ao “imo”
Com todo o seu carinho, imo tem críticos. O guia de etiqueta do Instituto Nacional da Língua Coreana, Etiqueta Linguística Padrão, não o inclui como forma de se dirigir a quem é de fora da família, e o Dicionário Padrão do Coreano ainda traz só o sentido familiar. Alguns colunistas coreanos argumentam que a palavra deixa o cliente pular o nome e a função de quem trabalha, e que a intimidade costuma ir num sentido só: do cliente para baixo. Por isso muitos coreanos, principalmente os mais jovens, ficam com jeogiyo ou sajangnim. A idade também pesa: chame uma mulher de vinte e poucos anos de imo e ela pode ouvir “você parece de meia-idade”.
Na barraca: peça como freguês antigo
- Escolha a palavra. Para a mulher de meia-idade na chapa, imo é simpático e quase sempre rende um sorriso. Fora isso, jeogiyo nunca erra, e sajangnim cai bem para o dono de uma loja.
- Leia a placa antes. A maioria das barracas deixa os preços à vista, e algumas esperam que cada pessoa no banco peça alguma coisa.
- Leve algum dinheiro vivo. Muitas lojas e restaurantes aceitam cartão, mas algumas barracas já pediram dinheiro ou transferência bancária aos clientes, então notas pequenas ajudam.
- Fique de olho no horário. As barracas de comida ficam abertas até a noite e também aos domingos, quando a maioria das lojas de tecidos e hanbok está fechada.
A fama também teve seu lado ruim. Reclamações sobre pratos mirrados e caros viraram notícia na Coreia em 2023 e de novo em 2025, e em 2026 a prefeitura de Seul e o distrito de Jongno mandaram fiscais disfarçados, coreanos e estrangeiros, para conferir as barracas. Saídas exatas do metrô, horários e um cartão para mostrar ao taxista estão no guia “Como chegar”, no fim da página.
Respostas rápidas
O que significa “imo” em coreano?
이모 (imo) significa a irmã da sua mãe. Os coreanos também usam a palavra como forma carinhosa de chamar uma mulher de meia-idade que serve comida, numa barraca de mercado ou num restaurante simples.
É falta de educação chamar a garçonete de imo na Coreia?
Em geral, não. Em mercados e restaurantes simples soa simpático quando a mulher está mais ou menos na meia-idade. Com funcionários jovens ou em lugares formais, o neutro jeogiyo (“com licença”) é mais seguro, e alguns coreanos não gostam nada de imo.
As barracas do Mercado Gwangjang aceitam cartão?
Nem sempre. Muitas lojas e restaurantes aceitam, mas algumas barracas de comida pedem dinheiro ou transferência bancária, então leve notas pequenas.
Como chegar
Mercado Gwangjang 광장시장
- Metrô
- Linha 1, estação Jongno 5-ga, saída 8 (poucos minutos a pé); ou linhas 2 e 5, estação Euljiro 4-ga, saída 4, caminhando para o norte e atravessando o riacho Cheonggyecheon
- Do aeroporto de Incheon
- AREX até a Estação Seul e depois linha 1 até a estação Jongno 5-ga
- Horário
- Lojas 9:00–18:00, fechadas aos domingos; beco da comida 9:00–23:00, aberto o ano todo. Cada barraca tem seu próprio horário
- Entrada
- gratuita. A maioria dos pratos das barracas custa cerca de 3.000–7.000 wons; o yukhoe custa mais
- Dica
- Algumas barracas só aceitam dinheiro ou transferência bancária: leve notas pequenas e confira os preços expostos. Para ajuda em inglês, ligue para a 1330 Travel Hotline (+82-2-1330)
Verificado em 10 de outubro de 2026. Horários e preços podem mudar, então confira o site oficial antes de ir. Na Coreia, o Google Maps não dá rotas a pé nem de carro — o Naver Map ou o Kakao Map funcionam melhor.


