É falta de educação deixar comida no prato na Coreia?
Não, deixar um pouco de comida no prato não é falta de educação na Coreia. Ninguém espera que você esvazie cada pratinho de acompanhamento, e sobrar um pouquinho não vai ofender ninguém. O que chama atenção é o desperdício: uma tigela de arroz largada pela metade ou uma mesa cheia de comida que você pediu e mal tocou.
O arroz é o que mais pesa. Muitos coreanos cresceram ouvindo os pais dizerem para não deixar nem um grão, muitas vezes com o ditado popular de que cada grão de arroz passa 88 vezes pelas mãos de um agricultor antes de chegar à mesa. Os mais velhos, que se lembram de tempos difíceis (as mesmas memórias por trás do cumprimento de que falamos na nossa matéria sobre o “Já comeu?”), costumam reparar mais numa tigela pela metade do que os jovens. Se você sabe que não vai dar conta, peça menos logo de cara: 밥 조금만 주세요 (bap jogeumman juseyo, “só um pouquinho de arroz, por favor”).
Nos restaurantes, existe também um motivo prático. Pelas regras sanitárias da Coreia, o que um cliente deixa não pode ser servido a outro, então tudo o que sobra na mesa vai para o lixo, como contamos na nossa matéria sobre os pratinhos da mesa coreana. Por isso os coreanos pedem para repor só os acompanhamentos que vão mesmo comer. Alguns rodízios e buffets livres colocam avisos de cobrança extra para quem deixa muita sobra. É uma regra da casa, não uma lei, e quase nunca é cobrada, mas o recado está dado. Em casa, o desperdício também pesa no bolso: desde que o sistema chegou ao país todo, em 2013, as famílias pagam pelo lixo orgânico por saco ou por peso, e muitos condomínios têm lixeiras que pesam o que cada apartamento descarta, com um cartão ou etiqueta.
Na casa de alguém, muitos anfitriões vão continuar enchendo o seu prato, então limpar tudo pode só render mais uma porção. O jeito educado de parar é dizer 배불러요 (baebulleoyo, “já comi bastante”) e, no fim, 잘 먹었습니다 (jal meogeosseumnida, “comi muito bem”, um agradecimento pela refeição). Elogie a comida, deixe um bocadinho e ninguém vai se importar.
O único lugar onde é preciso comer absolutamente tudo é o templo. No 발우공양 (baru gongyang, a refeição ritual dos monges budistas), que alguns programas de temple stay deixam o visitante experimentar, você se serve só do que consegue comer e, no fim, enxágua as tigelas com água e bebe essa água.


