É falta de educação recusar uma bebida na Coreia?
Não. Recusar uma bebida não é falta de educação na Coreia, desde que você faça isso com simpatia. O que pode causar estranhamento não é o "não" em si, mas o jeito de dizer, e alguns gestos simples resolvem quase tudo.
Por que parece algo tão sério? Numa mesa coreana, uma bebida quase nunca é só uma bebida. Servir alguém é uma forma de cuidar da pessoa, então, quando alguém mais velho ou o seu chefe oferece um copo, na visão dessa pessoa aquilo é uma gentileza. Afastar a garrafa ou tampar o copo de um jeito brusco pode soar como se você estivesse recusando a pessoa, e não o soju. Por isso, muitos coreanos que não bebem mantêm o gesto e dispensam o álcool: estendem o copo com as duas mãos, deixam encher, levantam no brinde e só encostam nos lábios. Um copo cheio ainda avisa, sem palavras, que você está bem, porque ninguém completa um copo que não está vazio. A regra das duas mãos e o resto do ritual estão no nosso guia sobre como se bebe com os mais velhos na Coreia.
Dar um motivo curto e simpático também ajuda, e ninguém espera uma longa explicação. Motivos de saúde ou de religião costumam ser bem compreendidos.
- 술을 잘 못 마셔요 (sureul jal mot masyeoyo, "não sou muito de beber")
- 차를 가져왔어요 (chareul gajyeowasseoyo, "vim de carro"), um motivo que ninguém contesta, já que desde 2019 o limite de álcool no sangue para motoristas na Coreia é de 0,03%
- 약 먹고 있어요 (yak meokgo isseoyo, "estou tomando remédio")
Encher o copo com água ou refrigerante para os brindes é supernormal, e você continua participando de cada 건배 (geonbae, "saúde!"). Dá também para continuar servindo os outros, o sinal mais claro de que você está curtindo a mesa mesmo sem beber.
Existe diferença entre gerações. Entre os coreanos mais jovens, um "hoje não vou beber" costuma encerrar o assunto. Algumas pessoas mais velhas, ou um jantar de empresa mais à moda antiga, ainda podem insistir com 한 잔만 (han janman, "só um copinho"). Um sorriso e um segundo "não" educado bastam, e pressionar alguém a beber é cada vez mais malvisto: desde julho de 2019, a Lei de Normas Trabalhistas da Coreia proíbe o assédio moral no trabalho, e o guia do Ministério do Emprego e Trabalho cita como exemplo obrigar alguém a beber ou a ir a jantares da empresa contra a vontade. E, se o encontro for em volta da grelha, conhecer as regras não escritas do churrasco coreano vai render muito mais simpatia do que esvaziar copos.


